TOLERÂNCIA
- Kalebe Ulle
- 1 de dez. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de out. de 2024
O atual pensamento coletivo social do nosso século ambiciona e idolatra a tolerância. Em nome do amor, espera-se que todos sejam capazes de, não apenas entender posições contrárias, mas também aceitá-las e aderi-las sem nenhum tipo de desaprovação. Talvez o slogan mais famoso que possa ser encontrado atualmente é: "Não julgue! Quem é você pra julgar!?". O que, por si só, é um argumento auto-destrutivo. Afinal, a própria declaração é um julgamento. Portanto, torna-se racionalmente insustentável. Norman Geisler e Frank Turek denominam tais argumentos como "a tática do Papa-léguas". Nome dado pela referência ao desenho animado do Papa-léguas e o Coiote. Segue-se um trecho do próprio livro Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu:
"
Outro fator interessante de se observar ainda neste tópico, é a definição pejorativa construída socialmente do termo "julgamento", já que um simples elogio é também um julgamento, e dificilmente observaremos alguém reclamando sobre ter sido elogiado. Desta forma, evidencio que este preconceito social moderno, mesmo tendo se apropriado e ressignificado o termo "julgamento", sustenta-se no desconforto da discordância. Assim, incapazes de suportar um posicionamento contrário, muitos acabam escondendo sua insegurança intelectual em determinados tópicos atrás de um slogan.
Tendo esclarecido isto brevemente, buscarei explanar com abrangência e da melhor forma possível, a visão bíblica de tolerância dentro do Corpo de Cristo.
A EXPRESSÃO DO AMOR NA UNIDADE - Romanos 14
A natureza coletiva e cooperativista do corpo de Cristo demanda a tolerância. Paulo sabia da importância desta virtude em plena funcionalidade no meio da igreja, e é isso que ele trata no capítulo quatorze do livro de Romanos em especificidade.
Tendo em foco primário os novos na fé, Paulo instrui aquele que se diz maduro à agir com sabedoria para com eles, discernindo meras interpretações equivocadas e precoces de caráter transitório, ou ainda um pensamento diferente (como o de algo que não se deve comer).
Há uma frase (por alguns atribuída a Agostinho) que ilustra bem o ponto destacado e defendido por Paulo:
“Nas coisas essenciais a unidade; nas não-essenciais, liberdade; mas em todas as coisas o amor”.
Muito além de uma frase de efeito, creio que esta carregue um bom equilíbrio do pensamento Paulino, que mesmo lutando constantemente pela preservação da sã doutrina, desejava a comunhão de diferentes opiniões e pontos de vista através da tolerância em amor.
Basta observar a dicotomia do apóstolo ao lidar com a sã doutrina nas escrituras. Mesmo que possamos dizer que o amor esteve presente em todas as suas cartas compiladas nas Escrituras. Jamais poderemos dizer que ele tratou todas as diferentes opiniões e situações da mesma maneira.
Para citar dois exemplos de comparação direta, vejamos Gálatas 5:1-12 em contraste com Romanos 14.
“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão. Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo, testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a guardar toda a lei. De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes. Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que provém da fé. Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor. Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chama. Um pouco de fermento leveda toda a massa. Confio de vós, no Senhor, que não alimentareis nenhum outro sentimento; mas aquele que vos perturba, seja ele quem for, sofrerá a condenação. Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo, está desfeito o escândalo da cruz. Tomara até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia.” (Gl 5:1-12)
Nestes cinco versículos podemos ver o nível de indignação de Paulo com os gálatas, pois estes estavam se desviando de um fundamento essencial – a salvação por meio da graça e a apropriação através da fé. Muito além da circuncisão (que pouco importava na opinião paulina), os gálatas estavam se voltando para a crença de que a salvação procedia da obediência à Lei Mosaica. Paulo, conhecendo-os, faz dura repreensão.
Neste caso, a resposta à diferença não foi tolerância e reconhecimento, mas sim confronto direto e objetivo, para que houvesse arrependimento e mudança. Observa-se claramente que Paulo não se preocupou em ser compreensivo com a opinião divergente. Pelo contrário, houve uma indignação profunda e um posicionamento completamente irredutível.
No entanto, em sua carta aos Romanos, no capítulo quatorze, ele os instrui à unidade e a não criar separação por julgamento. Mas sob qual premissa? Sob a premissa de que os fracos (ou novos) na fé possuirão opiniões pessoais diferentes a respeito de questões não essenciais do evangelho - Paulo cita comidas impuras e dias sagrados - Estas coisas, ainda que discutíveis, enquanto não alteram a fé na redenção por meio do sacrifício messiânico, são inofensivas na perspectiva eterna. Podemos considerá-las aspectos doutrinários de nível secundário. O amor deve reinar sobre elas através da tolerância, afim de que alcancemos a perfeita unidade na diversidade.
Outro ponto interessante abordado pelo apóstolo de forma específica, é a capacidade de abrir mão de um direito (algo lícito), por amor aos nossos irmãos que se escandalizariam. Esta situação tem o poder de trazer a verdade de dentro de nós à luz; somos capazes de realmente amar nossos irmãos mais do que nós mesmos?
Assim como Jesus nos exemplificou da maneira mais pura – amar é ceder! Paulo frisa a supremacia do amor sobre qualquer proposta de divergência social no meio do corpo de Cristo. A importância deste ponto, na verdade, já havia sido revelada pelo próprio Cristo no evangelho segundo João, capítulo dezessete:
“…a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17:21)
Esta poderosa oração de Jesus, foi feita como intercessão por todos os que ainda haveriam de crer Nele no futuro (nos incluindo). O peso da declaração concentra-se na conexão condicional de que nós – os que cremos/a igreja – fossemos plenamente unidos, para que assim o mundo cresse que Jesus é o Messias.
Se o próprio Cristo faz conexão direta entre a unidade e a propagação da verdade messiânica do evangelho, por que pensamos serem mais importantes os movimentos de evangelização dos perdidos do que a perfeita comunhão dos santos? Jesus os coloca em termos igualitários no que diz respeito ao valor de revelação do evangelho ao mundo. A unidade da igreja é é tão importante quanto a pregação da mensagem do evangelho de Cristo ao perdido.
Diante de tudo isso, Romanos quatorze me parece carregar uma mensagem ainda muito mais importante do que gostaríamos de admitir. A unidade não é fácil. Mas o preço de tolerância e perdão que pagamos por amor, visando a unidade perfeita do Corpo de Cristo em toda a sua diversidade, com certeza vale cada esforço.
Portanto, como a unidade exige o preço da entrega de desejos e direitos pessoais. Espelhemo-nos no melhor e mais perfeito exemplo de auto-sacrifício que toda a humanidade já viu; Jesus Cristo!
“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (Fp 2:5-8)
A morte sacrificial substitutiva sempre foi e sempre será a maior expressão de amor que poderemos experimentar. Não é atoa que cada conteúdo de entretenimento cinematográfico que busca fazer de algum personagem fictício um herói, copia o mesmo enredo.
Desta forma, quando exercer-mos este mesmo amor uns para com os outros, visando não mais nosso ganho próprio, mas a unidade; o mundo reconhecerá a Cristo – já que esta linguagem de amor é inexistente na cosmovisão egocentrista globalizada.




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